Imagine que você tenha sido designado para escrever um discurso de boas-vindas a um grupo de visitantes com deficiências visual, auditiva e mental e precise empregar uma expressão genérica para retratar esta condição, por qual delas optaria? Pessoas deficientes, pessoas portadoras de deficiência ou pessoas com deficiência?
A dificuldade de escolha é comum e compreensível. Jornalistas muito experientes também experimentam a mesma dúvida que cada um de nós passamos quando temos que optar pela expressão que julgamos mais adequada.
Quem optou por empregar o termo "pessoas com deficiência" acertou. Esta expressão é adequada, educada e assertiva e devemos aprender a utilizá-la com naturalidade para colocarmos em prática o exercício da cidadania no que se refere à inclusão social. Infeliz a expressão "pessoas deficientes", porque não faz sentido tomar o todo pela parte. Uma deficiência auditiva não torna a pessoa inteiramente deficiente, como o termo mal empregado supõe. Da mesma forma, usar a expressão "pessoa portadora de deficiência" é uma analogia igualmente infeliz à portabilidade da telefonia. Se uma pessoa com deficiência efetivamente portasse a sua deficiência, bastava deixá-la num canto qualquer e pronto.
Portano, sem preocupação de sermos inadequados ou desrespeitosos, utilizemos a expressão "pessoas com deficiência", porque precisamos promover a inclusão de todas as pessoas e reconhecer o valor humano que existe em cada um de nós.
Todos ser humano é limitado e alguns possuem limitações maiores que podem caracterizar desde uma pequena dificuldade até uma completa incapacidades para algumas atividades, mas isso não pode ser interpretado como uma deficiência da pessoa, mas uma pessoa que possui algum tipo de deficiência.
Está se estabelecendo no mundo uma nova ótica das deficiências, não mais definidas apenas por seus aspectos biológicos, mas biopsicossociais e em termos de funcionalidade, como preconiza a CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde).
Nos próximos anos, o Brasil viverá muitas transformações no que se refere à inclusão de pessoas com deficiência na educação regular. Em decorrência da Declaração de Salamanca de 1994, tivemos o decreto 7.611/2011, que estabelece um novo paradigma na educação inclusiva. Embora as novas políticas públicas representem um avanço no que tange ao alinhamento com as políticas internacionais do setor, na prática, a mudança representa um duro golpe no funcionamento de instituições educacionais voltadas a essas minorias.
Infelizmente, o decreto 7.611/11, que faz parte do plano "Viver sem limites",
decretou uma sentença de morte às instituições de ensino especializadas voltadas a alunos com deficiências, que terão corte de recursos públicos. Mais uma vez, importamos um modelo europeu, planejado minuciosamente para uma realidade européia e o implantamos sem reflexão alguma na realidade brasileira.
O Brasil possui um ensino público feito muito mais do amor dos professores pela educação do que pelo vergonhoso incentivo salarial e dos parcos benefícios que o governo a eles destina. Oxalá um dia teremos uma indexação salarial da classe política à dos professores da rede pública de ensino.
A sorte está lançada.
Fernando Botto é escritor, mestre em educação e especialista em saúde mental, psicopatologia e psicanálise.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
sábado, 16 de julho de 2011
Passageiros do Espelho

Fui aluno da professora e escritora Isabel Furini pela primeira vez há cerca de dez anos, na época, para fazer o curso “Práticas de oratória”.
Anos mais tarde, quando ela publicou O Livro do Escritor, imediatamente a contactei porque como estava em Angola e sempre dediquei uma especial atenção ao fomento da cultura e do desenvolvimento social do país, gostaria de levar alguns exemplares para lá. Marquei um encontro para apanhar alguns livros autografados, obviamente. Dentre os lugares onde se encontra o Livro do Escritor, está A União dos Escritores Angolanos, em Luanda.
Mantivemos contacto e surgiu o convite para integrar uma obra composta de contos escritos por autores que tinham algum vínculo como o estado do Paraná. Escrevi dois contos para a antologia, Girinos no copinho e Rachaduras, o que marca uma nova face das publicações literárias que fiz, num gênero dramático.
Por razões profissionais, não poderei estar presente no dia do lançamento do livro, o que lamento, mas não posso deixar de divulgá-lo.
Nas palavras da organizadora da obra Passageiros do Espelho, Isabel Furini, algumas notas sobre o livro:
“A coletânea de contos tem a característica de respeitar o estilo de cada autor. Podemos então nos deleitar com os retratos muito bem elaborados por Bruno Camargo Manenti. Outros de alta dramaticidade, entre eles os trabalhos de Alessandra Pajola, Alessandra Magalhães, Fernando Scaff Moura, Sônia Cardoso e Zeltia G. Não falta uma visão do mundo espiritual feita pela professora Natália Bueno. Já o escritor Fernando Botto lembrou a infância e Maria Edna fala da idade madura. Elayne Sampaio e Ricardo Manzo nos levam por caminhos inesperados. Fernando Scaff Moura nos empurra para uma época de horrores que ainda está viva na memória da América Latina.
‘Na apresentação de “Passageiros do espelho”, José Feldman, da Academia de Letras do Paraná, fala: “Morremos e renascemos a cada conto. A cada espelho. Nos vemos confiantes, solitários, agoniados, suicidas, aliviados, tristes e alegres. Somos vários espelhos, mas ao final, apenas um”.
‘A escritora e poeta Adélia Maria Woellner escreveu no prefácio: “Os ‘passageiros do espelho’ rompem silêncios, oferecendo suas histórias, seus devaneios, seus encantos, os arcanos da imaginação”.
‘Fortalece esse trabalho a colaboração especial do escritor, professor e crítico literário Miguel Sanches Neto, que nos convida a fazer uma “Viagem de Volta”.
‘Nas orelhas do livro a atriz, radialista e escritora gaúcha Ângela Reale destaca que no livro penetramos ‘em mundos tão diversos, em encontros inusitados, sonhos desfeitos, amores de longe e de perto, saudades, morte e vida’.”
O lançamento do livro de contos “Passageiros do Espelho” será em 26 de julho, a partir das 19 horas, no Palacete dos Leões, na Rua João Gualberto, 530, em Curitiba. A entrada é franca. Os interessados podem solicitar o convite pelo e-mail: isabelfurini@hotmail.com.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Desonestidade que virou normalidade
No marketing há uma tênue linha que separa a esperteza da desonestidade. E esta, revestida de uma atraente embalagem, passa a ser vista como uma interessante esperteza e, depois de pouco tempo, vira algo comum e normal.
As barras de chocolate são um bom exemplo disso. De 200 gramas, que eram o padrão de uma barra, passaram a 190 gramas, pelo mesmo preço. Pouquíssimos consumidores perceberam a redução, porque a embalagem permaneceu exatamente igual, à exceção do peso líquido, que reduziu 5%. A desonestidade virou regra e as barras de chocolate passaram a 180, 170, 160, 150, 140 e nesta semana encontrei uma impressionante barra de chocolate de ridículas 130 gramas! Desonestidade que virou normalidade.
Quem é que confere a metragem dos rolos de papel higiênico? Pois quem não costuma verificar isso é hora de conhecer esse outro tipo de desonestidade que virou normalidade. Algumas fábricas reduziram de 60 para 50, depois 40 e agora, encontra-se rolos de 30 metros. Daí vem o golpe complementar: pacotes de pague dez, leve onze rolos. Desonestidade que virou normalidade.
Uma grande rede de fast food internacional lançou no Brasil uma campanha neste mês de maio, com preços promocionais idênticos de vários produtos diferentes. Colocou o nome de um deles, SUNDAE, em destaque. Junto do nome, a foto do produto, igualmente em destaque. Embaixo, quase impossível de se ler, bem espremidinho, está escrito "caramelo". Ou seja, se você pedir um sundae de chocolate, paga mais caro. O mais barato é apenas o de caramelo. Desonestidade que virou normalidade.
Comprar um carro do ano é uma outra coisa pra lá de estranha. Como é possível comprar um carro 2012 em 2011? Ah, é só o modelo... Absurdo! E a desonestidade está ainda mais ousada. Há fábricas que entenderam direitinho o golpe e lançaram, em 2011 o modelo 2013. Desonestidade que virou normalidade.
Em meio a uma avalanche de criatividade desonesta, os órgãos de defesa do consumidor encontram um enorme desafio de coibir um defeito moral que reflete a ausência de uma política pública educacional voltada para a formação de profissionais comprometidos com a ética e com a construção da cidadania. Enquanto houver educadores que confundem criatividade com desonestidade e consumidores que não fazem escolhas pelos fornecedores éticos e que se preocupam com a sustentabilidade e com um mundo melhor, estaremos condenados a viver num país em que a desonestidade é prima-irmã da normalidade.
Fernando Botto é escritor.
As barras de chocolate são um bom exemplo disso. De 200 gramas, que eram o padrão de uma barra, passaram a 190 gramas, pelo mesmo preço. Pouquíssimos consumidores perceberam a redução, porque a embalagem permaneceu exatamente igual, à exceção do peso líquido, que reduziu 5%. A desonestidade virou regra e as barras de chocolate passaram a 180, 170, 160, 150, 140 e nesta semana encontrei uma impressionante barra de chocolate de ridículas 130 gramas! Desonestidade que virou normalidade.
Quem é que confere a metragem dos rolos de papel higiênico? Pois quem não costuma verificar isso é hora de conhecer esse outro tipo de desonestidade que virou normalidade. Algumas fábricas reduziram de 60 para 50, depois 40 e agora, encontra-se rolos de 30 metros. Daí vem o golpe complementar: pacotes de pague dez, leve onze rolos. Desonestidade que virou normalidade.
Uma grande rede de fast food internacional lançou no Brasil uma campanha neste mês de maio, com preços promocionais idênticos de vários produtos diferentes. Colocou o nome de um deles, SUNDAE, em destaque. Junto do nome, a foto do produto, igualmente em destaque. Embaixo, quase impossível de se ler, bem espremidinho, está escrito "caramelo". Ou seja, se você pedir um sundae de chocolate, paga mais caro. O mais barato é apenas o de caramelo. Desonestidade que virou normalidade.
Comprar um carro do ano é uma outra coisa pra lá de estranha. Como é possível comprar um carro 2012 em 2011? Ah, é só o modelo... Absurdo! E a desonestidade está ainda mais ousada. Há fábricas que entenderam direitinho o golpe e lançaram, em 2011 o modelo 2013. Desonestidade que virou normalidade.
Em meio a uma avalanche de criatividade desonesta, os órgãos de defesa do consumidor encontram um enorme desafio de coibir um defeito moral que reflete a ausência de uma política pública educacional voltada para a formação de profissionais comprometidos com a ética e com a construção da cidadania. Enquanto houver educadores que confundem criatividade com desonestidade e consumidores que não fazem escolhas pelos fornecedores éticos e que se preocupam com a sustentabilidade e com um mundo melhor, estaremos condenados a viver num país em que a desonestidade é prima-irmã da normalidade.
Fernando Botto é escritor.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Restaurant Week ou Bandejón Week?
Nesses primeiros dias de Restaurant Week em Curitiba tomei uma atitude diferente e resolvi dar um golpe na fidelidade, gastronomicamente falando, claro. Assim como muitos apreciadores da arte na culinária - que começam a degustar um prato com os olhos e narizes, eu também considero como complemento a uma refeição saborosa a estética do prato, a harmonização do ambiente e o atendimento compatível a isso tudo.
O Restaurant week materializa uma ideia genial ao oportunizar aos clientes pratos bem elaborados, com entrada e sobremesa a um preço fixo atraente em variadas opções de estabelecimentos. Sem dúvida, isso provoca o desejo de conhecer novos restaurantes e aliás, diga-se com orgulho, a Curitiba gastronômica está melhor a cada ano.
Ocorre que nem todos os restaurantes estão percebendo esta iniciativa como uma valiosa oportunidade de cativar novos clientes. Há casos curiosos, de participantes que entenderam muito mal os objetivos desta iniciativa e pecam profundamente tanto no atendimento quanto no capricho tradicional da montagem dos pratos sofisticados.
Alguns estabelecimentos parecem ter dado a seus funcionários um treinamento de “semana do bandejão”, em que haverá uma invasão de clientes carentes que deverão ser atendidos por eles como um gesto de solidariedade para com a classe média, que raramente frequenta tais ambientes. Outros, armam verdadeiras ratoeiras. Num deles, supostamente para colorir um pouco mais o cardápio, colocou, de maneira sub-reptícia, um pratinho de couvert que acresceu na conta quase o mesmo valor da refeição. Mas o campeão foi aquele que teve a audácia de servir uma água mineral, supostamente trazida de uma gruta sagrada muito distante, por um preço tão exótico quanto a origem, digna de sair do cardápio de bebidas e de ser promovida para a carta de vinhos.
Tais situações, embora reais, não tiram todo o brilho de iniciativas dessa natureza. O Restaurant Week está me proporcionando conhecer melhor restaurantes que sempre tive curiosidade de experimentar e que voltarei com certeza e outros, que apesar de terem águas minerais muito boas, não fazem o meu estilo.
Fernando Botto é escritor curitibano.
O Restaurant week materializa uma ideia genial ao oportunizar aos clientes pratos bem elaborados, com entrada e sobremesa a um preço fixo atraente em variadas opções de estabelecimentos. Sem dúvida, isso provoca o desejo de conhecer novos restaurantes e aliás, diga-se com orgulho, a Curitiba gastronômica está melhor a cada ano.
Ocorre que nem todos os restaurantes estão percebendo esta iniciativa como uma valiosa oportunidade de cativar novos clientes. Há casos curiosos, de participantes que entenderam muito mal os objetivos desta iniciativa e pecam profundamente tanto no atendimento quanto no capricho tradicional da montagem dos pratos sofisticados.
Alguns estabelecimentos parecem ter dado a seus funcionários um treinamento de “semana do bandejão”, em que haverá uma invasão de clientes carentes que deverão ser atendidos por eles como um gesto de solidariedade para com a classe média, que raramente frequenta tais ambientes. Outros, armam verdadeiras ratoeiras. Num deles, supostamente para colorir um pouco mais o cardápio, colocou, de maneira sub-reptícia, um pratinho de couvert que acresceu na conta quase o mesmo valor da refeição. Mas o campeão foi aquele que teve a audácia de servir uma água mineral, supostamente trazida de uma gruta sagrada muito distante, por um preço tão exótico quanto a origem, digna de sair do cardápio de bebidas e de ser promovida para a carta de vinhos.
Tais situações, embora reais, não tiram todo o brilho de iniciativas dessa natureza. O Restaurant Week está me proporcionando conhecer melhor restaurantes que sempre tive curiosidade de experimentar e que voltarei com certeza e outros, que apesar de terem águas minerais muito boas, não fazem o meu estilo.
Fernando Botto é escritor curitibano.
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