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sábado, 16 de julho de 2011

Passageiros do Espelho



Fui aluno da professora e escritora Isabel Furini pela primeira vez há cerca de dez anos, na época, para fazer o curso “Práticas de oratória”.
Anos mais tarde, quando ela publicou O Livro do Escritor, imediatamente a contactei porque como estava em Angola e sempre dediquei uma especial atenção ao fomento da cultura e do desenvolvimento social do país, gostaria de levar alguns exemplares para lá. Marquei um encontro para apanhar alguns livros autografados, obviamente. Dentre os lugares onde se encontra o Livro do Escritor, está A União dos Escritores Angolanos, em Luanda.
Mantivemos contacto e surgiu o convite para integrar uma obra composta de contos escritos por autores que tinham algum vínculo como o estado do Paraná. Escrevi dois contos para a antologia, Girinos no copinho e Rachaduras, o que marca uma nova face das publicações literárias que fiz, num gênero dramático.
Por razões profissionais, não poderei estar presente no dia do lançamento do livro, o que lamento, mas não posso deixar de divulgá-lo.
Nas palavras da organizadora da obra Passageiros do Espelho, Isabel Furini, algumas notas sobre o livro:
“A coletânea de contos tem a característica de respeitar o estilo de cada autor. Podemos então nos deleitar com os retratos muito bem elaborados por Bruno Camargo Manenti. Outros de alta dramaticidade, entre eles os trabalhos de Alessandra Pajola, Alessandra Magalhães, Fernando Scaff Moura, Sônia Cardoso e Zeltia G. Não falta uma visão do mundo espiritual feita pela professora Natália Bueno. Já o escritor Fernando Botto lembrou a infância e Maria Edna fala da idade madura. Elayne Sampaio e Ricardo Manzo nos levam por caminhos inesperados. Fernando Scaff Moura nos empurra para uma época de horrores que ainda está viva na memória da América Latina.
‘Na apresentação de “Passageiros do espelho”, José Feldman, da Academia de Letras do Paraná, fala: “Morremos e renascemos a cada conto. A cada espelho. Nos vemos confiantes, solitários, agoniados, suicidas, aliviados, tristes e alegres. Somos vários espelhos, mas ao final, apenas um”.
‘A escritora e poeta Adélia Maria Woellner escreveu no prefácio: “Os ‘passageiros do espelho’ rompem silêncios, oferecendo suas histórias, seus devaneios, seus encantos, os arcanos da imaginação”.
‘Fortalece esse trabalho a colaboração especial do escritor, professor e crítico literário Miguel Sanches Neto, que nos convida a fazer uma “Viagem de Volta”.
‘Nas orelhas do livro a atriz, radialista e escritora gaúcha Ângela Reale destaca que no livro penetramos ‘em mundos tão diversos, em encontros inusitados, sonhos desfeitos, amores de longe e de perto, saudades, morte e vida’.”
O lançamento do livro de contos “Passageiros do Espelho” será em 26 de julho, a partir das 19 horas, no Palacete dos Leões, na Rua João Gualberto, 530, em Curitiba. A entrada é franca. Os interessados podem solicitar o convite pelo e-mail: isabelfurini@hotmail.com.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Desonestidade que virou normalidade

No marketing há uma tênue linha que separa a esperteza da desonestidade. E esta, revestida de uma atraente embalagem, passa a ser vista como uma interessante esperteza e, depois de pouco tempo, vira algo comum e normal.

As barras de chocolate são um bom exemplo disso. De 200 gramas, que eram o padrão de uma barra, passaram a 190 gramas, pelo mesmo preço. Pouquíssimos consumidores perceberam a redução, porque a embalagem permaneceu exatamente igual, à exceção do peso líquido, que reduziu 5%. A desonestidade virou regra e as barras de chocolate passaram a 180, 170, 160, 150, 140 e nesta semana encontrei uma impressionante barra de chocolate de ridículas 130 gramas! Desonestidade que virou normalidade.

Quem é que confere a metragem dos rolos de papel higiênico? Pois quem não costuma verificar isso é hora de conhecer esse outro tipo de desonestidade que virou normalidade. Algumas fábricas reduziram de 60 para 50, depois 40 e agora, encontra-se rolos de 30 metros. Daí vem o golpe complementar: pacotes de pague dez, leve onze rolos. Desonestidade que virou normalidade.

Uma grande rede de fast food internacional lançou no Brasil uma campanha neste mês de maio, com preços promocionais idênticos de vários produtos diferentes. Colocou o nome de um deles, SUNDAE, em destaque. Junto do nome, a foto do produto, igualmente em destaque. Embaixo, quase impossível de se ler, bem espremidinho, está escrito "caramelo". Ou seja, se você pedir um sundae de chocolate, paga mais caro. O mais barato é apenas o de caramelo. Desonestidade que virou normalidade.

Comprar um carro do ano é uma outra coisa pra lá de estranha. Como é possível comprar um carro 2012 em 2011? Ah, é só o modelo... Absurdo! E a desonestidade está ainda mais ousada. Há fábricas que entenderam direitinho o golpe e lançaram, em 2011 o modelo 2013. Desonestidade que virou normalidade.

Em meio a uma avalanche de criatividade desonesta, os órgãos de defesa do consumidor encontram um enorme desafio de coibir um defeito moral que reflete a ausência de uma política pública educacional voltada para a formação de profissionais comprometidos com a ética e com a construção da cidadania. Enquanto houver educadores que confundem criatividade com desonestidade e consumidores que não fazem escolhas pelos fornecedores éticos e que se preocupam com a sustentabilidade e com um mundo melhor, estaremos condenados a viver num país em que a desonestidade é prima-irmã da normalidade.

Fernando Botto é escritor.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Restaurant Week ou Bandejón Week?

Nesses primeiros dias de Restaurant Week em Curitiba tomei uma atitude diferente e resolvi dar um golpe na fidelidade, gastronomicamente falando, claro. Assim como muitos apreciadores da arte na culinária - que começam a degustar um prato com os olhos e narizes, eu também considero como complemento a uma refeição saborosa a estética do prato, a harmonização do ambiente e o atendimento compatível a isso tudo.

O Restaurant week materializa uma ideia genial ao oportunizar aos clientes pratos bem elaborados, com entrada e sobremesa a um preço fixo atraente em variadas opções de estabelecimentos. Sem dúvida, isso provoca o desejo de conhecer novos restaurantes e aliás, diga-se com orgulho, a Curitiba gastronômica está melhor a cada ano.

Ocorre que nem todos os restaurantes estão percebendo esta iniciativa como uma valiosa oportunidade de cativar novos clientes. Há casos curiosos, de participantes que entenderam muito mal os objetivos desta iniciativa e pecam profundamente tanto no atendimento quanto no capricho tradicional da montagem dos pratos sofisticados.

Alguns estabelecimentos parecem ter dado a seus funcionários um treinamento de “semana do bandejão”, em que haverá uma invasão de clientes carentes que deverão ser atendidos por eles como um gesto de solidariedade para com a classe média, que raramente frequenta tais ambientes. Outros, armam verdadeiras ratoeiras. Num deles, supostamente para colorir um pouco mais o cardápio, colocou, de maneira sub-reptícia, um pratinho de couvert que acresceu na conta quase o mesmo valor da refeição. Mas o campeão foi aquele que teve a audácia de servir uma água mineral, supostamente trazida de uma gruta sagrada muito distante, por um preço tão exótico quanto a origem, digna de sair do cardápio de bebidas e de ser promovida para a carta de vinhos.

Tais situações, embora reais, não tiram todo o brilho de iniciativas dessa natureza. O Restaurant Week está me proporcionando conhecer melhor restaurantes que sempre tive curiosidade de experimentar e que voltarei com certeza e outros, que apesar de terem águas minerais muito boas, não fazem o meu estilo.

Fernando Botto é escritor curitibano.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Você ainda acredita nos testes de QI?

Há poucas décadas, os testes de QI eram amplamente aplicados e os resultados criavam distinções métricas entre pessoas mais e menos inteligentes.

O tempo passou e muitas pessoas atestadas como inteligentíssimas pelos testes de QI ao longo da vida não conseguiram transformar a sua inteligência em nada significativo, nem para elas mesmas, nem para os vigilantes e cruéis olhos da sociedade.

Ao contrário do que se esperava, pessoas que faziam seiscentos risquinhos perfeitos por minuto e resolviam desafios matemáticos complexos mascando chicletes e ouvindo música foram, com o tempo, superados por pessoas que não ficaram nos vinte e cinco risquinhos e que jamais resolveram sequer um desafio matemático infantil.

É, aquele sujeito desengonçado e de baixo QI, tido como ignorante na classe, lento e meio abobado, anos mais tarde se torna um habilidoso e rico comerciante, feliz e que ri à toa. Enquanto isso, o "número um" daquela turma, que supostamente estaria em situação muito melhor, sofre para pagar as prestações do carro, possui um casamento infeliz e está desgostoso com o trabalho que faz. Quem é o mais inteligente?

Algo de errado havia naquela medição de QI, certo? Não há dúvidas que aqueles testes subestimavam a complexidade da inteligência. É claro que o potencial medido naqueles testes teve a sua importância e finalidade, mas felizmente o enfoque sobre a inteligência mudou. O amor incondicional à lógica matemática e a marcante influência de Descartes davam uma consistente base para que pessoas dotadas dessa inteligência fossem vistas como inteligentes e veneradas.

Para a sorte do restante da humanidade que não foi o número um da sua classe, Howard Gardner criou a teoria das inteligências múltiplas, o que nos ajudou a compreender que podemos ser burros em matemática, mas sermos inteligentes em outra coisa, como por exemplo, com o corpo. Em outras palavras, o mau aluno em matemática pode se tornar um excepcional jogador de futebol, músico, jornalista, publicitário ou inventor.

As dimensões da inteligência propostas por Gardner nos ajudam não apenas a encontrar que tipo de inteligências com as quais me identifico mais, mas também me proporcionaram compreender que posso ser bom em alguma coisa e iniciar uma jornada em busca dessa descoberta.

A questão suscita o debate de um milenar questionamento existencial: "Afinal, o que é a inteligência?". De uma maneira simples, mas não simplista, percebo a inteligência como uma capacidade de aprender a ser feliz dentro das próprias limitações. A aprendizagem para tanto requer experimentação, tentativa e erro, disciplina, prazer, dor e sofrimento, angústia, ganhos, perdas e tudo aquilo que nos define como humanos.

Seria possível nos tornarmos inteligentes, então? Penso que não. Por uma simples razão: não nos tornamos inteligentes porque somos inteligentes. Temos dentro de nós uma inteligência para cada situação da vida e, ao longo do percurso, algumas são reprimidas e não se desenvolvem. Outras, são estimuladas e crescem. Por isso que um ambiente acolhedor, que permita este desenvolvimento, bem como a compreensão das nossas limitações contribui para que aprendamos a ser pessoas mais inteligentes ou, como costumo dizer, mais felizes.

*Fernando Botto é escritor.

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