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segunda-feira, 13 de junho de 2016

O papel do Judiciário frente a uma sociedade que adoece

O papel do Judiciário frente a uma sociedade que adoece*
por Fernando Botto**
Quanto mais doente está uma sociedade, maior importância terá o papel do Judiciário
* Publicado no jornal Gazeta do Povo, 21/5/2016
Existe uma relação entre os conflitos de uma sociedade e a importância de seu Poder Judiciário. Numa sociedade utópica, livre de conflitos, pouco protagonismo social teriam seus magistrados. Vale dizer que a Justiça não é feita apenas de juízes, pois ela depende de advogados, promotores, estatísticos, psicólogos, médicos, assistentes sociais e peritos das mais diversas áreas do conhecimento, além de administrativos, seguranças, motoristas, recepcionistas e secretárias. E seria possível administrar a justiça sem a limpeza pública e sem água, energia, internet e telefonia? Quando se trata do funcionamento do Estado, todos são importantes. É preciso mobilizar muitos recursos para tratar as patologias das relações sociais.
A intervenção do Judiciário nos conflitos levados ao seu crivo certifica a falência do diálogo social. Vivemos uma espécie de epidemia em que o “ficar de mal” entre gente grande bate primeiro às portas do judiciário antes mesmo das partes trilharem o diálogo direto. O processo judicial é transformado num palco para o exercício de comportamentos vingativos e destrutivos das partes. O número crescente de litígios no judiciário interfere na qualidade dos julgamentos, prejudica a celeridade e atenta contra uma prestação jurisdicional eficiente e satisfatória e, mais grave do que isso, sequestra a qualidade de vida dos julgadores que se veem sufocados e frustrados, pois anteveem um futuro ainda mais caótico. A saúde dos operadores do direito deveria ser cuidada ao invés de escravizada pelo Estado.
"A sociedade adoecida incentiva a consumismo, o hedonismo e desqualifica as suas instituições"
Não se trata apenas da saúde do corpo, mas da mente e das relações sociais, como preconiza a Organização Mundial da Saúde. A despeito disso, o Estado enxerga como única solução uma progressiva compensação salarial, algo que representa mais uma espécie de adicional por insalubridade incorporado do que políticas públicas concretas que garantam aos magistrados uma carga de processos adequada e não desumana.
Num efeito cascata, os cursos de Direito permanecem com uma orientação curricular fortemente valorizadora do litígio e infimamente voltada às relações humanas, à psicologia e às negociações extrajudiciais e às transações. O abarrotamento do Judiciário vem sendo tratado como doença e não como sintoma de um sistema social que beira ao colapso. Culpa-se o doente por sua doença. O Estado permanece como o maior cliente e beneficiário do Judiciário. Políticos incompetentes e de duvidosas intenções causam danos à sociedade, mas a conta, quando cobrada, será apresentada às futuras gestões.
A sociedade adoecida incentiva a consumismo, o hedonismo e desqualifica as suas instituições. Há pouco incentivo ao diálogo, ao respeito ao próximo e às ações que levavam crianças a “fazer as pazes” no jardim de infância. Em que ponto entre a infância e a vida adulta a sociedade se perdeu? Os operadores do Direito estão adoecendo por conta de um sistema intencionalmente criado para a manutenção do caos. A sociedade clama por profissionais que se sintam realizados ao invés de escravizados. O dinheiro é fundamental, mas ele por si só não compra o bem-estar dos magistrados. Um juiz saudável profere decisões saudáveis. E é importante perceber que quanto mais doente está uma sociedade, maior importância terá o papel de seu Poder Judiciário.

*disponível em http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/o-papel-do-judiciario-frente-a-uma-sociedade-que-adoece-alrror0etl2bpqqxnzw0o8qdg

**Fernando Botto Lamoglia, palestrante, advogado, psicólogo e escritor.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Tia Zilda ainda vive


                Zilda Arns foi uma pessoa que marcou a vida de muitas pessoas. Muitas delas ainda bebês foram salvas por mãos amigas que operam verdadeiros milagres nas vidas do próximo a cada dia. Nos anos em que vivi em Angola, conheci algumas dessas pessoas e me envolvi com atividades das Pastorais da Criança e da Família. Sempre achei fantásticas as oportunidades de interação humana nesses projetos de responsabilidade social, ainda mais na África, que tinha todo um toque cultural nas explosões de cores, de emoções e de fatos pitorescos que merecem ser contados nas milhares de fotografias que conservo carinhosamente arquivadas. Isso tudo sem falar naquela misteriosa atmosfera de curiosidade recíproca que marcavam cada oportunidade de encontros, palestras, atendimentos e mesmo em situações informais de pura confraternização.

                Naquele ano de 2010 encontraria a dra Zilda em Angola. Já a conhecia em terras brasileiras, mas em Luanda não estivemos juntos. O destino decretou a sua convocação celestial frustrando uma aguardada agenda, enfim, a areia do tempo esvaiu-se precocemente nas ampulhetas de sua vida. E que vida!

                O que me motivou reativar esse blog foi um misto de acontecimentos recentes. Num deles, fiquei surpreso ao visitar o Memorial Zilda Arns em Curitiba e fiquei petrificado diante de uma foto dela segurando a pequena Clara em seus braços. Eu tenho guardada uma camiseta idêntica a aquela e espero que em breve ele faça parte do acervo do Memorial. Na verdade, aquela camiseta também tem uma história, que a conheço bem porque fiz parte dela. A Clara visitou a minha casa em Luanda, na companhia das irmãs Joceli e Isabel. Era um bebê lindo, com uma história absolutamente incrível. Indo para o epílogo sem desmerecer o prólogo e o logos, ela acabou sendo adotada legalmente por um casal de médicos italianos que prestavam serviços voluntários em Angola. Eles se apaixonaram por aquele sorriso que hoje tem 8 anos de idade e que ri à toa em terras italianas. A Clara faz judô, inglês, toca bateria, vai à escola, enfim, faz tudo aquilo que uma criança deveria ter: uma infância feliz.

                Quando levada para as irmãs da Pastoral por crianças de rua, numa situação de abandono, a menina contava com dois meses de idade e pesava um quilo e meio. Ficou um mês no hospital. A mãe da Clara, por surpreendente que pareça, a visitou algumas vezes, mas sem a intenção de tê-la sob seus cuidados maternos novamente. Ela sofria com o alcoolismo e sua saúde ficou comprometida seriamente depois de contrair HIV e de apanhar uma devastadora tuberculose. A mãe da pequena Clara faleceu há cerca de dois anos.

Missa em memória da dra Zilda em Angola
 
                No dia 13 de março de 2010 fizemos uma missa em homenagem póstuma à dra Zilda, na igreja Sagrada Família em Luanda. Na época escrevi um post nesse blog, com o título "Missa em memória da dra Zilda Arns em Luanda". As camisetas verdes e brancas das pessoas participantes possuem a foto dela segurando a pequena Clara.

                Esta é uma das tantas histórias de transformação que ouvi e vivi em Angola, terra que muito me ensinou e ensina até hoje. Tia Zilda, assim ficou registrado o sentido da palavra amor na memória ainda desprovida da fala de um bebê chamado Clara. Amor este que ficou como lição para inspirar as nossas intenções e as nossas ações.

*Fernando Botto é psicólogo, advogado e escritor.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A criatividade na simplicidade

Por Fernando Botto


  Certa vez, fiz um cruzeiro num pequeno barco-hotel. Logo no embarque, nós, os passageiros-hóspedes, fomos recebidos pela tripulação, disposta em fila, cada qual com a seu uniforme de trabalho: o cozinheiro de branco com uma espumadeira na mão, a recepcionista de terninho, o comandante com seu imponente traje, os garçons de gravata borboleta e os demais tripulantes todos nos cumprimentavam com um humilde e iluminado sorriso. Aliás, um sorriso tão verdadeiro que sentia-se que o corpo todo sorria.
  Todos sabemos quando somos recebidos com alegria de verdade. Aquele era um time de pessoas que transpiravam paixão por nos receber a bordo. Mas confesso que fiquei intrigado: será que aquela excelente recepção não era um mero teatrinho bem ensaiado? Dias depois, pouco a pouco, fui percebendo que a alegria da tripulação não era fruto de uma palestra ou de um treinamento motivacional, mas resultavam de uma relação daquelas pessoas com o trabalho em si.
  E, naquele ambiente de comprometimento, como clientes, fomos surpreendidos diversas vezes por coisas simples e inusitadas, a exemplo da maneira como as mesas eram arrumadas no restaurante, das festas interativas preparadas de modo a despertar a vontade de participar e, como mostra a fotografia, a cada novo dia, uma nova maneira de dispor as toalhas dos quartos.
  Como cliente, guardei recordações inesquecíveis. E isto me faz refletir que, para sermos marcantes, para termos uma empresa marcante, com produtos e serviços marcantes, podemos aproveitar algo de muito precioso que podemos extrair do nosso time: a criatividade.
  E é importante levar em conta que a criatividade não se impõe. Ela tem que ser incentivada, aplaudida, bem cuidada e estimulada, porque todos nós somos criativos, temos grandes ideias e, muitas vezes, precisamos sentir que estamos todos no mesmo barco navegando numa só direção, orientada para um destino. Aliás, tão importante quanto definir o destino e buscá-lo, é perceber que a vida acontece durante a trajetória.

terça-feira, 20 de março de 2012

Lançamento do livro Eu quero ser escritor


A escritora Isabel Furini, autora de dezenas de obras e professora que já ensinou milhares de alunos técnicas de comunicação oral e escrita, lançará no dia 27 de março, às 19h, em Curitiba, no Palacete dos Leões, o livro Eu quero ser escritor: a crônica. As técnicas apresentadas são exemplificadas por crônicas de outros autores. Escrevi uma crônica de humor neste livro que se chama Psicanálises da vida cotidiana.

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