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terça-feira, 14 de abril de 2015

Tia Zilda ainda vive


                Zilda Arns foi uma pessoa que marcou a vida de muitas pessoas. Muitas delas ainda bebês foram salvas por mãos amigas que operam verdadeiros milagres nas vidas do próximo a cada dia. Nos anos em que vivi em Angola, conheci algumas dessas pessoas e me envolvi com atividades das Pastorais da Criança e da Família. Sempre achei fantásticas as oportunidades de interação humana nesses projetos de responsabilidade social, ainda mais na África, que tinha todo um toque cultural nas explosões de cores, de emoções e de fatos pitorescos que merecem ser contados nas milhares de fotografias que conservo carinhosamente arquivadas. Isso tudo sem falar naquela misteriosa atmosfera de curiosidade recíproca que marcavam cada oportunidade de encontros, palestras, atendimentos e mesmo em situações informais de pura confraternização.

                Naquele ano de 2010 encontraria a dra Zilda em Angola. Já a conhecia em terras brasileiras, mas em Luanda não estivemos juntos. O destino decretou a sua convocação celestial frustrando uma aguardada agenda, enfim, a areia do tempo esvaiu-se precocemente nas ampulhetas de sua vida. E que vida!

                O que me motivou reativar esse blog foi um misto de acontecimentos recentes. Num deles, fiquei surpreso ao visitar o Memorial Zilda Arns em Curitiba e fiquei petrificado diante de uma foto dela segurando a pequena Clara em seus braços. Eu tenho guardada uma camiseta idêntica a aquela e espero que em breve ele faça parte do acervo do Memorial. Na verdade, aquela camiseta também tem uma história, que a conheço bem porque fiz parte dela. A Clara visitou a minha casa em Luanda, na companhia das irmãs Joceli e Isabel. Era um bebê lindo, com uma história absolutamente incrível. Indo para o epílogo sem desmerecer o prólogo e o logos, ela acabou sendo adotada legalmente por um casal de médicos italianos que prestavam serviços voluntários em Angola. Eles se apaixonaram por aquele sorriso que hoje tem 8 anos de idade e que ri à toa em terras italianas. A Clara faz judô, inglês, toca bateria, vai à escola, enfim, faz tudo aquilo que uma criança deveria ter: uma infância feliz.

                Quando levada para as irmãs da Pastoral por crianças de rua, numa situação de abandono, a menina contava com dois meses de idade e pesava um quilo e meio. Ficou um mês no hospital. A mãe da Clara, por surpreendente que pareça, a visitou algumas vezes, mas sem a intenção de tê-la sob seus cuidados maternos novamente. Ela sofria com o alcoolismo e sua saúde ficou comprometida seriamente depois de contrair HIV e de apanhar uma devastadora tuberculose. A mãe da pequena Clara faleceu há cerca de dois anos.

Missa em memória da dra Zilda em Angola
 
                No dia 13 de março de 2010 fizemos uma missa em homenagem póstuma à dra Zilda, na igreja Sagrada Família em Luanda. Na época escrevi um post nesse blog, com o título "Missa em memória da dra Zilda Arns em Luanda". As camisetas verdes e brancas das pessoas participantes possuem a foto dela segurando a pequena Clara.

                Esta é uma das tantas histórias de transformação que ouvi e vivi em Angola, terra que muito me ensinou e ensina até hoje. Tia Zilda, assim ficou registrado o sentido da palavra amor na memória ainda desprovida da fala de um bebê chamado Clara. Amor este que ficou como lição para inspirar as nossas intenções e as nossas ações.

*Fernando Botto é psicólogo, advogado e escritor.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A criatividade na simplicidade

Por Fernando Botto


  Certa vez, fiz um cruzeiro num pequeno barco-hotel. Logo no embarque, nós, os passageiros-hóspedes, fomos recebidos pela tripulação, disposta em fila, cada qual com a seu uniforme de trabalho: o cozinheiro de branco com uma espumadeira na mão, a recepcionista de terninho, o comandante com seu imponente traje, os garçons de gravata borboleta e os demais tripulantes todos nos cumprimentavam com um humilde e iluminado sorriso. Aliás, um sorriso tão verdadeiro que sentia-se que o corpo todo sorria.
  Todos sabemos quando somos recebidos com alegria de verdade. Aquele era um time de pessoas que transpiravam paixão por nos receber a bordo. Mas confesso que fiquei intrigado: será que aquela excelente recepção não era um mero teatrinho bem ensaiado? Dias depois, pouco a pouco, fui percebendo que a alegria da tripulação não era fruto de uma palestra ou de um treinamento motivacional, mas resultavam de uma relação daquelas pessoas com o trabalho em si.
  E, naquele ambiente de comprometimento, como clientes, fomos surpreendidos diversas vezes por coisas simples e inusitadas, a exemplo da maneira como as mesas eram arrumadas no restaurante, das festas interativas preparadas de modo a despertar a vontade de participar e, como mostra a fotografia, a cada novo dia, uma nova maneira de dispor as toalhas dos quartos.
  Como cliente, guardei recordações inesquecíveis. E isto me faz refletir que, para sermos marcantes, para termos uma empresa marcante, com produtos e serviços marcantes, podemos aproveitar algo de muito precioso que podemos extrair do nosso time: a criatividade.
  E é importante levar em conta que a criatividade não se impõe. Ela tem que ser incentivada, aplaudida, bem cuidada e estimulada, porque todos nós somos criativos, temos grandes ideias e, muitas vezes, precisamos sentir que estamos todos no mesmo barco navegando numa só direção, orientada para um destino. Aliás, tão importante quanto definir o destino e buscá-lo, é perceber que a vida acontece durante a trajetória.

terça-feira, 20 de março de 2012

Lançamento do livro Eu quero ser escritor


A escritora Isabel Furini, autora de dezenas de obras e professora que já ensinou milhares de alunos técnicas de comunicação oral e escrita, lançará no dia 27 de março, às 19h, em Curitiba, no Palacete dos Leões, o livro Eu quero ser escritor: a crônica. As técnicas apresentadas são exemplificadas por crônicas de outros autores. Escrevi uma crônica de humor neste livro que se chama Psicanálises da vida cotidiana.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A psicologia do mal na telefonia celular

Conhecer, predizer e controlar o comportamento humano são perspectivas das ciências do comportamento que podem melhorar a qualidade de vida das pessoas, desde que tais sabedorias não caiam em mãos erradas.

Quem tem sido vítima de uma violência noturna das companhias de telefonia móvel sabe o que isso significa. Imagine-se numa noite tranquila, em que reina uma paz infinita, com sonhos agradáveis que poderiam ser eternizados, quando de repente, uma campainha histérica soa e te suga subitamente para a realidade. São quatro horas da manhã e não se trata de nenhuma desgraça familiar: é apenas a sua gentil operadora informando que o saldo do seu telemóvel está quase no fim.

A análise do comportamento nos revela que frequentemente agimos de modo a evitar aquilo que nos é aversivo, portanto, desenvolvemos no nosso repertório pessoal as noções de fuga e de esquiva. As operadoras descobriram que enviar torpedos de madrugada para você efetuar uma recarga é um estímulo terrivelmente cruel ou, na linguagem dos especialistas, intensamente aversivo. E ainda, quanto maior a insistência, maior a probabilidade do cliente “aprender” a agir como deve: passar a efetuar recargas preventivas para evitar os inconvenientes SMS da madrugada.

Mas não podemos reclamar, pois temos um sistema legal formidável que nos protege de abusos ainda maiores! Para a nossa sorte, os competentes legisladores brasileiros por enquanto não regulamentaram a venda de aparelhos celulares que emitem choques elétricos quando os créditos estão baixos e que ficam permanentemente eletrificados quando o saldo termina até que façamos a próxima recarga. Embora tenhamos uma classe política atuante, é desejável que as autoridades defensoras do bom sono dos consumidores se atentem, porque a tecnologia que “descobre” quando você começa a cochilar já existe numa certa marca de veículos. Já pensou se ela resolve fazer uma associação tipo joint venture com as empresas de telefonia móvel para que estas enviem seus SMS aos seus clientes que estão com o saldo baixo no momento exato do pimeiro cochilo?

Às vezes me pergunto se sou apenas eu que acho um abuso das operadoras lançarem mão destes recursos malignos para atingir seus propósitos. Em seguida, concluo que sou possivelmente o único portador de um telefone celular que deixo o saldo chegar no finalzinho para, então, efetuar a recarga e isso deve irritar profundamente o pessoal da minha operadora. Portanto, agora percebo o quão aversivo sou eu, que não participo das promoções imperdíveis que recebo por SMS e que ainda tenho a petulância de recarregar os créditos apenas quando eu quiser. Quando se analisa a situação deste prisma, vejo que a operadora de telefonia quer o meu bem e eu desejo que quem teve essa ideia brilhante dos SMS da madrugada durma profundamente, porque já é tarde e eu esqueci que ainda tenho que escovar os dentes e recarregar o meu celular.

*Fernando Botto é escritor, autor dos livros Alho, cebola e beijo na boca e Fungos da Mongólia. Tem celular pré-pago e sofre de insônia, momentos que aproveita para escrever artigos e ler SMS.

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