Fernando Botto ,
*publicado no Jornal do Brasil em 26/01/2009
RIO - Em paz desde 2002, Angola intensificou a sua posição política internacional e avança a passos largos em busca da conquista da hegemonia africana. Antes conhecida como “a pérola da África”, Luanda encantava pela sua sedutora beleza litorânea e pelo ambiente agradável para se viver. No entanto, aquela não era a Angola dos angolanos, mas a mais próspera das colônias africanas de Portugal. A soberania foi conquistada em 1975, com a independência, mas a paz se efetivou apenas em 2002. Desde então, Angola passou a figurar entre os países com maior crescimento econômico do mundo.
Com uma produção que beira os 2 milhões de barris/dia, o petróleo permanece como grande financiador da reconstrução de Angola. Em 2006, o ouro negro representou cerca de 95% da receita de exportações angolanas, aproximadamente US$ 32 bi, dos quais quase 40% tiveram como destino os Estados Unidos. Outra grande economia, a China, tem Angola como segundo maior fornecedor de petróleo atualmente. O setor diamantífero correspondeu a 4,5% das exportações. Madeira, pesca e café sequer atingem 1%. Nos idos de 1973 e 74, Angola ocupou o posto de quarto maior produtor mundial de café, dado que serve de amostra do potencial agrícola do país.
Embora a balança comercial de Angola tenha acusado saldo positivo superior a US$ 22 bilhões em 2006, a vertiginosa queda do preço do petróleo no mercado internacional – de US$ 140 para menos de US$ 40 no segundo semestre de 2008 – deu uma amostra dos riscos de se depositar todos os ovos do desenvolvimento angolano na mesma cestinha. Apesar de que, hoje em dia, risco mesmo é ter dinheiro aplicado nas mais sólidas instituições financeiras do mundo.
Com reservas internacionais estimadas em US$ 11,2 bilhões e um PIB estimado de US$ 46,93 bilhões em 2007, Angola importa produtos de praticamente todos os setores. Em 2006, 17,1% das importações angolanas corresponderam a máquinas e motores; 9,5% a produtos metalúrgicos; 9,5% a automóveis e autopeças; 8,7% a materiais elétricos e eletroeletrônicos. O restante é relativo a alimentos, bebidas, móveis e outros produtos. De acordo com a Apex, o Brasil exportou US$ 514 milhões para Angola em 2005 e, no ano de 2006, o total atingiu US$ 836 milhões.
Segundo a Direção Nacional de Alfândegas de Angola, Portugal foi o principal fornecedor das importações angolanas (17,1%) em 2006, seguido de Estados Unidos (9,8%) e Brasil (8,6%). A participação do Brasil tem muito a crescer no mercado angolano, como tem ocorrido, mas prudência é fundamental. A mídia tem pintado uma imagem de Angola como a Serra Pelada do século 21, terra de oportunidades em que não há nada e tudo está por ser feito. Ledo engano. Esta aparente sensação de que “tudo dá certo em Angola” promove um fluxo de investimentos aleatórios que, muitas vezes, resulta em elevados prejuízos.
De olho na enxurrada de capitais até então canalizados com base no achismo dos investidores, o governo angolano criou um órgão especializado, a Agência Nacional para o Investimento Privado (Anip). Com o objetivo de promover condições propícias e apoios para o investimento doméstico e estrangeiro, a Agência tem realizado pesquisas de mercado para orientar os investidores, bem como promovido apoio e alianças entre eles. Recentemente, a nova pauta aduaneira estabeleceu alíquota zero para importação de mercadorias que se inserem em projetos de investimento privado.
Pelo lado brasileiro, a Apex realizou um estudo que se estendeu entre 2004 e 2006, cujo resultado apontou para oportunidades de exportação do Brasil para Angola nos setores de alimentos, bebidas, agronegócios, cosméticos e higiene pessoal; móveis, cortiças, cerâmicos, produtos metalúrgicos, tintas e vidro, dentre outros.
Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Apesar da proximidade cultural, da língua portuguesa, dos incentivos, da empatia com o povo brasileiro e da abundância de recursos financeiros e naturais, esses elementos devem ser analisados no contexto de um dos países mais caros do mundo para se viver, aliado a riscos e imprevistos diversos que fazem parte do cotidiano angolano. Aliás, para investidores que são avessos a correr riscos, a sugestão é optar por papéis das mais sólidas e confiáveis instituições financeiras do mundo. Será?
* advogado, educador, especialista em negócios internacionais e consultor de negócios entre Brasil e Angola
sábado, 7 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Negócios ambulantes são a nova febre de angola


Donos de pequenos negócios criam espaços e desenvolvem actividades lucrativas como meio de driblar a inflação imobiliária
Por Fernando Botto, publicado na Revista Figuras & Negócios, de Angola
Os “ambulantes” são os profissionais que sobrevivem de vendas de produtos de baixo valor em barracas que são instaladas temporariamente, prática típica de países em que os empregos formais são muito escassos. É claro que o surgimento, manutenção ou diminuição desse perfil de profissionais são influenciados por indicadores macroeconômicos que representam imponentes desafios para todo e qualquer governo.
Luanda atravessa um longo e tenebroso momento de inflação imobiliária, impulsionada por factores que nem os melhores economistas ou astrólogos de plantão conseguem explicar com exactidão. O custo de vida na capital, seja para nacionais ou para estrangeiros, é um dos mais altos do mundo e não se tem notícia de nenhum modelo econômico que explique o fenômeno da economia angolana, que é medalha de ouro em crescimento mundial e promete mais novidades nos preços de terrenos, apartamentos e vivendas nos próximos anos.
São muitas as variáveis que compõem o preço de um imóvel em Luanda: proximidade da Mutamba, cuja alcunha é “capital de Luanda”, andar alto ou baixo, estado de conservação do prédio, condições de água e do gerador, número de quartos e, é claro - quem pretende arrendar. O cliente ideal é o estrangeiro, de preferência que pertença a uma petrolífera disposta a desembolsar algo entre cinqüenta e cem mil dólares por dois anos de contracto de um apartamento de médio padrão com todos os predicativos de um imóvel que há mais de trinta anos não sabe o significado da palavra manutenção.
Com a procura crescente por imóveis e a incapacidade das construtoras em atender a essa demanda em tempo real, os preços tendem a subir e isso torna alguns negócios inviáveis, como é o caso de peixarias, constatado como ramo de actividade em crise, em decorrência das margens de lucro cada vez menores em função do custo para se arrendar um imóvel. Em pouco tempo, se calhar, será mais lucrativo encerrar o negócio de peixaria e “zungar” pela cidade. Difícil mesmo será desenvolver o talento das zungueiras que conseguem anunciar o seu produto com uma vitalidade vocal que daria inveja até ao saudoso tenor Luciano Pavarotti.
Mas, angolano que se preza não se deixa abater com a alta dos preços de imóveis e dá uma verdadeira aula de empreendedorismo e criatividade. Espalhados por Luanda e por muitas províncias estão pequenos empresários que incrementam os rendimentos familiares com negócios que se caracterizam pela sua mobilidade, os chamados “negócios ambulantes”. Paula José, 27 anos, há cinco anos retira seu “rollete” da garagem de sua casa na Cassenda para garantir um rendimento mensal bruto médio de setecentos dólares, obtidos do comércio de cachorro-quente, hambúrguer e bebidas diversas. A renda da empresária do “comércio ambulante” é um incremento do salário obtido como orientadora educacional. Os preços são de Kz200 por um saboroso cachorro-quente e Kz400 por um hambúrguer, que leva queijo, fiambre, ovo e salada. Segundo ela, “o meu sonho é de conseguir um emprego formal. Se eu ganhasse quinhentos dólares por mês e uma chance de crescer, deixaria tudo de lado.”
Outro empresário que soube contornar os altos preços dos imóveis é Francisco Mauete, de 26 primaveras. O jovem trabalha há dez anos com unhas e há quatro decidiu investir as economias acumuladas numa tenda. A espera dos clientes, homens e mulheres, é um dos frutos do investimento que fez. Mauete cobra entre mil e dois mil kwanzas para fazer as unhas e quinhentos pelos desenhos. Afirma o dono do negócio ambulante que “nos dias fracos ganho, no máximo 50 dólares, mas nos dias de movimento, chego a facturar até 150”. Indagado sobre o sonho da sua vida, Mauete não hesitou: “um dia terei o meu salão aqui no Cassenda”.
Mas não é apenas em Luanda que os negócios ambulantes fazem sucesso. Suzi, que vive no Calulo, na Província do Kwanza Sul, divide o seu tempo entre os dois sítios. Transporta a sua “empresa de cabelos” entre a sua encantadora cidade natal e Luanda. Nos dias de melhor movimento para aplicar cabelos, recebe cerca de dois mil kwanzas no Calulo e cinco mil em Luanda, mas adverte: “em Luanda ganha-se mais, mas gasta-se muito mais”.
Os negócios ambulantes são as soluções encontradas por empreendedores que não dispõem de recursos suficientes para arrendar um imóvel, mas buscaram recursos criativos para ganhar alguma renda extra que pode significar uma poupança para realizar um sonho, manter um padrão de vida, ou para a mera sobrevivência.
Possivelmente por representar uma possibilidade de realização de sonhos com baixo investimento inicial que o negócio ambulante se mostre tão interessante, mas vale dizer que o sucesso de qualquer empreendimento em Angola depende, além da atitude, do conhecimento do ramo e da qualidade do produto vendido ou do serviço prestado. Afinal, quando a febre da abertura de novos negócios ambulantes passar, restarão apenas aqueles que Charles Darwin chamaria de “melhores adaptados” ao imprevisível mercado angolano.
Fernando Botto é consultor de negócios em Angola: fernandokwz@gmail.com
quinta-feira, 31 de julho de 2008
O Fracasso da Rodada de Doha
Doha a quem doer e doeu. O Brasil, mais uma vez, deu um show em matéria de improviso em estratégia política internacional. Agiu como uma espécie de peixe Betta, todo colorido, nadando calmamente em mares revoltos entre tubarões ardilosamente posicionados e orquestrados por um interesse uníssono de não ceder aos esperneios dos moluscos, cianofíceas, crustáceos e alguns outros organismos procariontes quase conhecidos que lutavam por suas quirerinhas.
Não é de hoje que o Brasil é amador e destemido, pelo menos quando o assunto envolve questões internacionais. É como um eletricista que não lembra direito se o fio vermelho é positivo ou negativo, mas como é cheio de atitude, proativo, vai em frente. Nossos representantes tendem a ser inadequadamente emocionais em ambientes regidos pela razão e pelo raciocínio lógico e analítico. Na rodada de Doha, o Brasil fez cara de mau, partiu para o ataque emocional aos poderosos e fez um fã-clube de admiradores que são tão significativos quanto as hortaliças do meu quintal. Conquistamos a confiança das galinhas, mas no final, traímos os próprios princípios e nos aliamos com as raposas. Resultado: acabamos rejeitados no galinheiro e sem expressão alguma entre as raposas.
O mais cruel é que a imensa maioria dos brasileiros nem sonha o que significa OMC e a Rodada de Doha está mais para uma saidera do que para outra coisa. Há quem goste dos trocadilhos e das brilhantes parábolas presidenciais que tem nos distraído nesse país que é dirigido de uma esplêndida Brasilha das Fantasias. Mas há algo que a cada dia me intriga mais: será que os trocadilhos e as brilhantes parábolas presidenciais são mesmo trocadilhos e parábolas? Às vezes acredito que quando o Lula fala de futebol, de time que tem que jogar unido para fazer gol significa exatamente disso que ele está falando: de futebol. Nada mais. Nossos jornalistas, blogueiros, professores e até alguns esforçados profetas, tocados por uma sabedoria conquistada com muito suor e intenso esforço, são os legítimos responsáveis por dar brilho às analogias que fazem o Brasil se emocionar. E isso funciona aqui dentro. O eleitor brasileiro elege por dó, não por capacidade e muito menos por competência. Pode reparar: no Big Brother sempre vence o mais pobrinho (nem que seja de espírito).
Premiamos os criminosos e metemos na cadeia o pobre índio que descascou a árvore para fazer um chá para a esposa doente. Criminoso no Brasil tem duas opções: ou volta para a cadeia ou vira político, porque para pedir emprego com ficha criminal, não está fácil. Daqui a pouco -pela obesidade mórbida da lista dos candidatos a cargos eletivos que respondem a processos criminais- , receio que seja mais perigoso para o candidato ser barrado por não estar nela inscrito.
Em compensação, os melhores bombeiros do mundo estão aqui. Pena que quase todos eles decidiram ir para a política para apagar incêndios. Aliás, essa é a única coisa que parece planejada no governo: incêndios. Taca fogo e manda apagar, mas com águas especiais, de empresas especiais, cujos acionistas são muito especiais. Quem se lembra do kit de primeiros socorros? Das provocantes propagandas de preservativos? Agora a moda é o bafômetro. A maquininha está em todas. Só não está na rampa do Palácio do Planalto, porque não é permitido dirigir nada por lá.
A crise que vivemos não é a da política monetária do Bacen, nem das parábolas delirantes, muito menos do amadorismo em Doha. É uma crise de valores. Nossos representantes não estão sendo fiéis aos próprios princípios e isso sempre nos afastará de negociar os conflitos com base nos interesses que cada parte possui. Necessitamos de soluções sistêmicas, de investimentos maiores na educação e de ações planejadas, ao invés de apenas apagarmos, dia após dia, os intermináveis incêndios. Que tal começarmos a conter os incendiários?
---
*Fernando Botto, mestre em educação e especialista em negócios internacionais.
Não é de hoje que o Brasil é amador e destemido, pelo menos quando o assunto envolve questões internacionais. É como um eletricista que não lembra direito se o fio vermelho é positivo ou negativo, mas como é cheio de atitude, proativo, vai em frente. Nossos representantes tendem a ser inadequadamente emocionais em ambientes regidos pela razão e pelo raciocínio lógico e analítico. Na rodada de Doha, o Brasil fez cara de mau, partiu para o ataque emocional aos poderosos e fez um fã-clube de admiradores que são tão significativos quanto as hortaliças do meu quintal. Conquistamos a confiança das galinhas, mas no final, traímos os próprios princípios e nos aliamos com as raposas. Resultado: acabamos rejeitados no galinheiro e sem expressão alguma entre as raposas.
O mais cruel é que a imensa maioria dos brasileiros nem sonha o que significa OMC e a Rodada de Doha está mais para uma saidera do que para outra coisa. Há quem goste dos trocadilhos e das brilhantes parábolas presidenciais que tem nos distraído nesse país que é dirigido de uma esplêndida Brasilha das Fantasias. Mas há algo que a cada dia me intriga mais: será que os trocadilhos e as brilhantes parábolas presidenciais são mesmo trocadilhos e parábolas? Às vezes acredito que quando o Lula fala de futebol, de time que tem que jogar unido para fazer gol significa exatamente disso que ele está falando: de futebol. Nada mais. Nossos jornalistas, blogueiros, professores e até alguns esforçados profetas, tocados por uma sabedoria conquistada com muito suor e intenso esforço, são os legítimos responsáveis por dar brilho às analogias que fazem o Brasil se emocionar. E isso funciona aqui dentro. O eleitor brasileiro elege por dó, não por capacidade e muito menos por competência. Pode reparar: no Big Brother sempre vence o mais pobrinho (nem que seja de espírito).
Premiamos os criminosos e metemos na cadeia o pobre índio que descascou a árvore para fazer um chá para a esposa doente. Criminoso no Brasil tem duas opções: ou volta para a cadeia ou vira político, porque para pedir emprego com ficha criminal, não está fácil. Daqui a pouco -pela obesidade mórbida da lista dos candidatos a cargos eletivos que respondem a processos criminais- , receio que seja mais perigoso para o candidato ser barrado por não estar nela inscrito.
Em compensação, os melhores bombeiros do mundo estão aqui. Pena que quase todos eles decidiram ir para a política para apagar incêndios. Aliás, essa é a única coisa que parece planejada no governo: incêndios. Taca fogo e manda apagar, mas com águas especiais, de empresas especiais, cujos acionistas são muito especiais. Quem se lembra do kit de primeiros socorros? Das provocantes propagandas de preservativos? Agora a moda é o bafômetro. A maquininha está em todas. Só não está na rampa do Palácio do Planalto, porque não é permitido dirigir nada por lá.
A crise que vivemos não é a da política monetária do Bacen, nem das parábolas delirantes, muito menos do amadorismo em Doha. É uma crise de valores. Nossos representantes não estão sendo fiéis aos próprios princípios e isso sempre nos afastará de negociar os conflitos com base nos interesses que cada parte possui. Necessitamos de soluções sistêmicas, de investimentos maiores na educação e de ações planejadas, ao invés de apenas apagarmos, dia após dia, os intermináveis incêndios. Que tal começarmos a conter os incendiários?
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*Fernando Botto, mestre em educação e especialista em negócios internacionais.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
A política especulativa do BC
Publicado no Jornal Gazeta do Povo em 14/07/2008 | Fernando Botto
Imagine como seria um programa O Aprendiz com os presidentes dos países da América do Sul? O Lula seria finalista, a modelo iria posar nua e o Chávez seria desclassificado por não ler o dossiê que continha as regras do jogo.
O governo federal resolveu ir ao cinema. Chegou atrasado e esbaforido. Sentou-se e passou a assistir ao trailer do filme intitulado "A volta do fantasma da inflação". Passaram-se dois, três, cinco, dez minutos, uma hora até que, finalmente, o astuto e atento governo notou que não se tratava de um trailer, mas do próprio filme de terror que há muito tempo havia começado.
A inflação não "despertou" de um sono profundo, como tem sido pulverizado na mídia nacional. Pelo contrário: ela foi cuidadosamente cultivada em condições ótimas de desenvolvimento. Por isso retorna, em elegante desfile na passarela dos derivados de trigo, soja e pecuária. O governo até tentou maquiá-la, mas agora nem mesmo o reboco do pedreiro dará conta do que está por vir. Não há mais saída: os governantes terão de fazer o que mais temiam: governar.
Primeira medida: achar um culpado. Nem que seja o caseiro, até porque o mordomo já está batido. A culpa caiu no mercado internacional, que "elevou" o preço dos produtos alimentares impactando fortemente no cálculo da inflação canarinha. Em retaliação à realidade, o Bacen eleva a taxa Selic como medida para combater os efeitos internos do aumento do preço do alimento no mercado mundial. Isso lembra o esforço do beija-flor que voava ao rio para buscar água e apagar o incêndio na floresta. A intenção não era apagar o incêndio, mas inspirar seguidores.
No caso, se Lula fosse um beija-flor tentando conter os efeitos do mercado internacional, conseguiria no máximo o apoio de alguns insetos e seres semi-invisíveis, líderes de economias andarilhas. Imagine como seria um programa O Aprendiz com os presidentes dos países da América do Sul? O Lula seria finalista, a modelo iria posar nua e o Chávez seria desclassificado por não ler o dossiê que continha as regras do jogo.
Nós, brasileiros criativos e competentes, não somos capazes dar outra resposta à inflação a não ser elevar a Selic? Produzir mais alimentos não forçaria a queda de preços? Revisar alíquotas de importações, incentivar o consumo de produtos substitutos ou fazer uma reforma tributária pelo jeito dá muito trabalho. O governo prefere ver R$ 10 de juros no bolso do banqueiro a ver R$ 2 de financiamento no bolso de um produtor brasileiro.
As artérias do crescimento estão entupidas e as taxas de colesterol dolarizado no país sobem. Os exportadores sofrem. A classe média quebra os cofrinhos, compra dólar e faz a alegria do Mickey e do Pateta. E agora, Meirelles? Creio que ele daria duas opções: 0,25 ou 0,50. Para qualquer doença, uma aspirina a cada quatro horas. Assim foram tratados os sinais da inflação brasileira nesses últimos anos. E vamos brindando o grau de "especulamento"!
Apesar do governo, a competente iniciativa privada brasileira faz o país crescer. Aumentar a Selic seria perfeito, se não fosse o Brasil campeão mundial de taxa básica de juros. O fato equivale a levar um obeso que deseja emagrecer a um café colonial e tentar convencê-lo de que, para quem já está tão acima do peso, algumas coxinhas e empadinhas não farão muita diferença. A explicação, óbvia e ululante, poderia ser dada pelo doutor Meirelles: não se preocupe, seu peso aumentará, no máximo, 0,25 ou 0,5 ponto porcentual.
Fernando Botto é mestre em Educação e especialista em negócios internacionais.
Disponível em http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=786589&tit=A-politica-especulativa-do-BC
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